O IPCA de junho fechou em 4,1% no acumulado de doze meses — dentro da meta do Banco Central. Nos jornais e nas declarações de autoridades, isso é motivo de comemoração. Mas quem foi ao supermercado nas últimas semanas sabe que a sensação não é de alívio.

Não é impressão. Alimentos têm peso diferente no índice oficial e no orçamento de famílias de baixa renda. O IPCA mede uma cesta ampla de bens e serviços para famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. Quem ganha menos gasta uma fatia proporcionalmente maior em comida — e sente mais quando o feijão sobe.

O que subiu mais

Nos últimos doze meses, carnes, ovos e hortaliças acumularam altas bem acima da média do índice. A estiagem em regiões produtoras e o aumento das exportações de proteína animal pressionaram os preços domésticos. O frango, que era alternativa barata, também encareceu.

Energia elétrica e combustíveis, que têm impacto indireto em toda a cadeia de produção e distribuição, também contribuíram para manter os preços elevados mesmo com a inflação "controlada" no papel.

Por que o índice não captura tudo

O IPCA é uma média. E médias escondem extremos. Uma queda no preço de passagens aéreas — que afeta quem viaja — pode compensar uma alta no feijão — que afeta quase todo mundo. O resultado final parece equilibrado, mas as famílias que não viajam de avião não sentem o alívio.

Economistas chamam isso de "inflação percebida" versus "inflação medida". A diferença não é ilusão — é estrutural. E ela explica por que pesquisas de satisfação com a economia costumam ser piores do que os números macroeconômicos sugerem.

Para quem precisa ajustar o orçamento doméstico, a dica prática é simples e chata: monitorar os preços dos produtos que você realmente compra, não os que aparecem no índice. Aplicativos de comparação de preços e listas de compras planejadas continuam sendo as ferramentas mais eficazes — e gratuitas — para quem quer gastar menos sem abrir mão do essencial.